Histórias

CRIAÇÃO DO ESPORTE
Todos sabem que o futebol americano foi criado nos EUA, mas nem todos sabem como ele surgiu, ou como ele chegou no patamar que está nos dias de hoje. Além disso, existem algumas pessoas que ainda se perguntam o porquê se chama futebol, se é jogado com as mãos e não com os pés.
Tudo isso se dá pela origem do próprio futebol, que teve seus primeiros passos ainda na Ásia e Europa, quando em 1815, na cidade de Eton, os ingleses começaram a se organizar e criaram os primeiros esboços de regras do esporte, que ganharia o nome oficial de Association Football.
Ainda na terra da rainha, no ano de 1823, na cidade de Rugby, surgiu uma dissidência do futebol. Um estudante chamado William Webb Ellis decidiu que não queria usar seus pés para chutar a bola e correu pelo campo com ela em mãos. Algo que despertou o interesse de seus colegas, que acharam muito mais fácil praticar o esporte carregando a pelota, e não apenas chutá-la. Ninguém sabe se a história é verdadeira, mas assim nasceu uma nova modalidade: o Rugby Football.

William Webb Ellis, criador do Rugby Football

Rugby Football nos EUA

American Rugby Football


Os norte-americanos só foram conhecer as duas versões inglesas do football por volta da década de 1860, já que durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, os jovens de famílias ricas do país foram estudar nas universidades conceituadas da Grã-Bretanha para ficar longe dos conflitos. Quando retornaram a América, eles trouxeram consigo bolas e as regras dos dois esportes já populares entre os ingleses. Os dois esportes se espalharam pelas escolas, universidades e clubes americanos.
Com o tempo, os ianques começaram a se identificar bastante com a modalidade praticada com as mãos vindo do outro lado do mundo, principalmente no nível universitário. Só que o esporte passou por constantes modificações e sucessivas divergências sobre suas regras.
Não se sabe ao certo qual foi a primeira partida de futebol americano, mas em 1867 foi realizada uma série de três jogos entre a universidade de Harvard e a universidade de McGill, de Montreal no Canadá. Os jogadores da McGill jogavam segundo as regras do rugby, no entanto, os de Harvard jogavam o jogo já com adaptações feitas nos EUA. Como era frequente acontecer nesses tempos de quase inexistência de regras universais, as equipes jogavam com alternância de regras, de modo a que ambas tivessem uma hipótese justa de vencer.

Nasce o futebol inglês no começo do século 19

Uma partida de Rugby na Rugby   School

Rugby Football nos EUA


Entretanto, muitas pessoas apontam que o primeiro confronto do esporte foi no ano de 1869, quando as universidades de Rutgers e Princeton se enfrentaram em uma partida que misturava as regras do Association Football e do Rugby Football.
Só no ano de 1876, representantes das famosas e conceituadas universidades de Columbia, Harvard, Princeton e Yale (percussores da Ivy League) decidiram ajustar a modalidade as suas necessidades, formando assim a Intercollegiate Football Association. Eles também adaptaram o nome da modalidade à sua maneira, a apelidando de American Rugby Football. Essa reunião para padronização do esporte ficou conhecida historicamente como Massoit Convention.
No entanto, com o passar dos anos, as regras do esporte foram sendo modificadas aos poucos e por volta de 1880 o esporte havia ficado totalmente diferente do original, não fazendo mais sentido a palavra “rugby”. A partir daí a modalidade começou a ser chamada de American Football, depois só de football.

O PAI DO FUTEBOL AMERICANO
As mudanças mais notórias do football foram realizadas por Walter Chauncey Camp, que foi jogador (1875 a 1880) e treinador da universidade de Yale e Stanford (1888 a 1895), além de escritor e entusiasta do esporte. Considerado como “pai do futebol americano”, Camp foi um dos principais personagens da história do jogo e proporcionou a evolução do esporte em terras estadunidenses.
Presente na Massoit Convention, Walter Camp criou a regra dos downs (descidas): toda vez que o atleta que tivesse a posse da bola fosse derrubado, o juiz interromperia o embate para que os times se realinhassem e reiniciassem a partida em uma nova jogada (down), se diferenciando do rugby, que ao jogador ser derrubado, não há uma pausa para refazerem a formação.

Time Yale 1879 com o captão Walter Camp

Walter Camp em 1910


Outra alteração foi na regra de avanço do campo. Ele propôs que um time que estivesse com a bola teria três chances para avançar pelo menos cinco jardas – diferente de hoje, que são 4 chances para 10 jardas. Se não conseguisse, entregava a bola ao adversário. Com isso, também se criou a linha de scrimmage, para saída bola depois do alinhamento dos times.
Essas modificações propostas por Camp alteraram todo o futebol americano, ajudando ainda mais a espalhar a sua popularidade pelo país.

MORTES NO FUTEBOL AMERICANO UNIVERSITÁRIO
A difusão e popularização do futebol americano nos Estados Unidos se deu por meio das universidades do país que criaram equipes para representar as instituições no fim do século XIX e início do século XX. Logo, o esporte se tornou popular em nível universitário e assumiu o papel de principal atividade esportiva nos EUA.
Na década de 1890, formações ofensivas em massa, com formatos de “blocos” e “bolsões”, eram muito utilizadas, já que era difícil de se derrubar o jogador que possuía a bola e ficava no meio desse “muro humano”. Na tentativa de parar esses avanços, os adversários se atiravam de forma brutal contra o rival, inclusive com voadoras, já que a regra do tackle (derrubada) não proibia tal agressão. Contudo, isso fez do esporte uma prática extremamente perigosa.
Por conta disso, em 1905, o esporte quase foi banido. Mesmo com mudanças nas regras, o futebol americano era puramente jogado com corridas ou passes laterais, assim como rugby, ainda concentrando os jogadores em uma pequena faixa do campo para a proteção de quem carregava a bola. Sem equipamentos ou regras de proteção, o esporte causou lesões tão graves que 18 jogadores universitários morreram naquele ano.

Theodore Roosevelt

John Heisman

Knute Rockne


Vendo essa situação, o então presidente Theodore Roosevelt ameaçou proibir a modalidade pelo país se ele não se tornasse mais seguro e exigiu modificações para reduzir sua brutalidade. A partir disso surgiu a National Collegiate Athletic Association (NCAA) e foram feitas várias mudanças na prática do futebol americano para torná-lo mais seguro. Regras específicas foram criadas, incluindo somente sete jogadores na linha de scrimmage – assim como nos dias atuais –e aquela que o transformaria para sempre: o forward pass - passe para a frente -, uma ideia do treinador John Heisman, pois obrigaria que ataques e defesas se espalhassem pelo campo, tornando o jogo mais seguro.
Essa inovação demorou a dar resultado, já que os quarterbacks da época não estavam acostumados em passar a bola, que era bem mais pesada e menos aerodinâmicas que temos hoje, tornando a jogada ainda mais arriscada. Somente em 1913 os lançamentos começaram a cair na graça dos times graças à ousadia da University of Notre Dame e de seu técnico e jogador Knute Rockne, outro foi um dos maiores nomes da história do futebol americano.

POPULARIZAÇÃO E PROFISSIONALIZAÇÃO DO ESPORTE
A origem do futebol americano de forma profissional só aconteceu em 1920, com a criação da American Professional Football Association (Associação de Futebol Americano Profissional)que, em 1922, mudou seu nome para National Football League (Liga Nacional de Futebol), ou, simplesmente, NFL. O jogo, que foi considerado um esporte das cidades industriais do meio oeste dos Estados Unidos, passou a ganhar espaço e adeptos, se tornando cada vez mais popular. Entretanto, só dois dos times fundadores seguem da NFL até hoje: o Chicago Cardinals, que atualmente é o Arizona Cardinals, e o Decatur Staleys, conhecido hoje como Chicago Bears.

Washington Redskins vs Chicabo Bears em 1942

Akron Pros 1920


O início da liga foi complicado, com times sumindo, falta de dinheiro e improvisos. O ponto mais baixo foi a final de 1932, quando Chicago Cardinals e Portsmouth Spartans (atual Detroit Lions) foram obrigados a jogar no Chicago Stadium, já que o Wrigley Field, principal estádio da cidade estava fechado por conta da neve. O problema é que além de jogar em um campo de 80 jardas, um circo tinha ficado no mesmo campo em que eles, fazendo que a partida fosse realizada em um gramado coberto de feno e fezes de elefante.
Na década de 1950, a NFL ainda dividia a atenção dos americanos com o passatempo americano: o beisebol. Na briga pela audiência com o até então o esporte favorito dos EUA, a liga de futebol americano começou a virar o jogo com o apoio da televisão, que transmitia seus jogos para todo o país. Seu ápice veio em 1958, quando na decisão do torneio o Baltimore Colts (atual Indianapolis Colts) derrotou o New York Giants, na prorrogação, por 23 a 17. Essa final quebrou recordes de audiência nas transmissões americanas, com 45 milhões de espectadores (1 em cada 4 pessoas nos Estados Unidos). Esse confronto até hoje é conhecido como "o maior jogo de todos os tempos".

SURGE UM RIVAL
Depois da NFL se estabelecer entre os fãs, em 1960 um campeonato rival, a American Football League (AFL), fundada por alguns proprietários que tiveram suas franquias recusadas na expansão da NFL ou já tinham pequenas participações nas equipes da liga nacional. O campeonato foi disputado de 1960 a 1969 e atraiu a atenção do público norte-americano com bons jogos.
Mais tarde, em 1970, as duas ligas resolveram se fundir e criar um único campeonato. A liga fora dividida em duas conferências: a American Football Conference (Conferência Americana de Futebol) e a National Football Conference (Conferência Nacional de Futebol). A divisão entre as duas ocorreu de acordo com seus campeonatos precursores, com a final sendo disputada pelo campeão de cada conferência.
Esse último embate foi dado o nome de Super Bowl, que teve sua estreia em 1967, ainda sem a junção das duas ligas, e se tornou o evento anual de televisão com maior audiência nos Estados Unidos e, com o passar das décadas, um dos mais vistos do mundo, sendo transmitido ao vivo para 180 países.

Joe Namath atuando pelo primeiro campeão da AFL no Super Bow

Lamar Hunt - Um dos fundadores da AFL e do Kansas City Chiefs

Rozelle com duas bolas representando as duas ligas que se fundiram


Segundo a Forbes, a marca Super Bowl é a mais valiosa do mundo, com valores chegando perto da casa US$600 bilhões. Quase o dobro dos Jogos Olímpicos – de verão e inverno – e a Copa do Mundo FIFA.
Em 1991, a partida foi transmitida ao vivo para os soldados americanos que lutavam na Guerra do Golfo. Em 1992, os astronautas a bordo da nave espacial Discovery tiveram o mesmo privilégio.
A decisão do Super Bowl foi uma ideia do bilionário texano Lamar Hunt, magnata do petróleo e apaixonado por esportes, sendo a única pessoa estar no Hall da Fama de três modalidades diferentes: futebol americano, tênis e futebol. A partida foi nomeada por Hunt só em 1969 e graças a uma bola de borracha de uma das suas filhas que tinha o nome de super ball. Hunt então lembrou dos jogos que valiam títulos de futebol americano universitário, chamados de bowls, então sugeriu que decisão do esporte profissional ficasse conhecida como “Super Bowl”.

UM SHOW NO SUPER BOWL
Com o objetivo de aumentar ainda mais a exposição que o Super Bowl recebia de toda a mídia, a NFL decidiu em 1993 que seu maior evento deveria ser transformado em um grande show, além do espetáculo já visto dentro de campo. Com isso, a liga resolveu colocar no intervalo da decisão um show grandioso, com a participação de alguns dos maiores cantores dos EUA e do mundo.
O primeiro convidado do show do intervalo foi ninguém menos que o rei do pop: Michael Jackson. Desde então, artistas renomados como Diana Ross, James Brown, Stevie Wonder, U2, Paul McCartney, Aerosmith, Rolling Stones, The Who, Madonna, Bruce Springsteen, Prince, Beyoncé, Bruno Mars, Justin Timberlake, entre outros, foram os astros que tocaram na noite mais importante dos esportes americanos.


O PODER E EXPANSÃO DA NFL
Hoje, a NFL é a liga mais valiosa do mundo. De acordo com levantamento do site How Much.net, feito em 2016, a liga americana tem valor estimado em U$ 13 bilhões. E tem transmissão difundida por mais de 170 países, com o Super Bowl sendo o evento esportivo que só perde em audiência para a final da Copa do Mundo e para a para a final da Uefa Champions League, com quase 200 milhões de espectadores por todo o globo. A decisão do torneio norte-americano também conta com os 30 segundos de comerciais mais caros da história, valendo algo em torno de US$ 6 milhões.

NFL em Londres

NFL field logo

NFL no México em 2017

Partida da NFL no México


Com isso, a liga resolveu expandir seus domínios e popularidade para fora da terra do Tio Sam. Desde 2007 a NFL organiza ao menos um dos seus jogos por temporada no icônico Estádio de Wembley, em Londres, maior estádio de futebol da Inglaterra e casa da seleção inglesa. Outro país que já recebeu confrontos da liga foi o México, no Estádio Azteca. Além disso, houve planejamentos para confrontos na Alemanha, Japão, Austrália e até no Brasil.

BRASIL NA NFL
Embora seja um esporte tradicionalmente norte-americano, os brasileiros se destacam, como sempre, e conseguiram chegar aos alguns principais times da NFL e do futebol americano universitário, e muito disso por conta do nosso futebol jogado com os pés. Abaixo alguns jogadores do país que se destacaram com a bola oval na terá do Tio Sam.

Breno Giacomini


Breno Giacomini foi um dos primeiros esboços do sangue brazuca na NFL. O right tackle (OL) de 2,02m de altura nasceu em Massachusetts, nos Estados Unidos, e sempre morou lá, mas tem sangue brasileiro, como ele mesmo diz: é filho de um casal de brasileiros que nasceram em Governador Valadares (MG), e fala português.
Breno foi escolhido para a NFL em 2008 e entrou em campo apenas uma vez naquele ano. Em 2010, foi contratado pelo Seattle Seahawks, onde conseguiu se encontrar na liga: foram 15 partidas em 2011 (oito como titular), participou em todos os jogos de 2012 e em 2013, finalmente, fez parte da conquista do Super Bowl XLVIII pelos Seahawks, contra o Denver Broncos.
Em fevereiro de 2014 esteve no Brasil com o projeto de clínicas de futebol americano “American Football Without Barriers”, na tradução, Futebol Americano Sem Barreiras, junto com outros jogadores da NFL. Logo depois, transferiu-se para o New York Jets, Houston Texans e Oakland Raiders.

Maikon Bonani

Bonani, nascido em Matão (SP), foi a primeira esperança de se ter um brasileiro nativo jogando na temporada regular da NFL e, na verdade, foi o primeiro brasileiro raiz a vestir uma camisa de um time da NFL.
Ele se mudou para os Estados Unidos aos 11 anos de idade, começou a jogar futebol americano no colégio e se destacou na University of South Florida como kicker. Em 2012, foi eleito o melhor da posição na conferência Big East do esporte universitário.
Em 2013, o Tennessee Titans anunciou a contratação de Maikon Bonani, que chegou a jogar a pré-temporada pelo time, mas, foi dispensado. Em 2014, voltou a ser chamado, mas foi dispensado junto com seu principal concorrente, Travis Coons, pois os Titans optaram pela contratação do veterano Ryan Succop, dispensado pelo Kansas City Chiefs em cima da hora, que, por sua vez, decidiu ficar com outro brasileiro: Cairo Santos.

Cairo Santos – O “zica das bicudas”

Cairo é, de longe, o brasileiro mais bem-sucedido do esporte da bola oval em terra norte-americanas. Paulista, nascido em Limeira, fez a sua primeira partida da NFL pelo Kansas City Chiefs exatamente no dia 7 de setembro de 2014, independência do Brasil.
O kicker foi eleito em 2012 o melhor jogador da sua posição em todo o futebol americano universitário no EUA. E mesmo assim teve seus problemas para consegui entrar na NFL. Em 2014, contratado pelo Chiefs, Cairo todo o seu potencial vencendo a concorrência e garantindo seu lugar no time, sendo um dos principais nomes da franquia já em seu ano de estreia. Ele ficou no time de Kansas até 2017, quando teve uma lesão na virilha e acabou perdendo a sua vaga no time.
Ainda assim voltou a atuar na NFL pelo Chicago Bears, mas por não estar totalmente recuperado, se lesionou novamente e foi dispensado. Em março de 2018, Cairo assinou com o New York Jets um contrato de um ano, contudo, cinco meses depois e antes mesmo da temporada começar, foi dispensado, ainda por conta da lesão que o assombrou no ano anterior. Em outubro de 2018, o brasileiro assinou com o Los Angeles Rams enquanto o titular da equipe se recuperava de uma contusão. Já totalmente recuperado, Cairo atuou em dois jogos, sendo decisivo nos dois, e agora espera outra oportunidade na liga.
Cairo Santos também foi nomeado pela NFL o embaixador da liga no Brasil, no qual teve até um documentário feito com sua trajetória. Além disso, realizada clinicas anuais no país para atletas que sonham um dia se profissionalizar no esporte.
https://www.youtube.com/watch?v=-83qyZcs88o&t=12s

Rafael Gaglianone

Ainda no futebol americano universitário, o também kicker Rafael Gaglianone está no último ano dele com a Universidade de Wisconsin, o que significa que a chance de tentar entrar na NFL está cada vez mais próxima.
Há quatro anos atuando pelos Badgers, Gaglianone possui números expressivos: tem o maior aproveitamento da história da faculdade em extra points, com 98,8% (acertou 168 de 170), o segundo maior em field goals, com 80% (acertou 70 de 85), além de ter sido eleito o segundo melhor kicker da conferência Big Ten na última temporada.
E como não poderia deixar de ser, o grande exemplo para Gaglianone é Cairo Santos, único brasileiro que atuou na NFL. Eles, inclusive, já se conheceram, trocaram experiências. Além de dicas, o jovem também acredita que pode, um dia, jogar contra o conterrâneo na NFL.

Outros de sangue brazuca

Teoricamente, os arquivos da NFL colocam Tim Mazzetti, kicker do Atlanta Falcons entre 1978 e 1980, como o primeiro brasileiro a atuar oficialmente na liga, pois ele está registrado como nascido em São Paulo. Só que na verdade o jogador nasceu em Old Greenwich, em Connecticut, e viveu na capital paulista dos dois aos 17 anos, portanto, não é brasileiro.
Outro com sangue brasileiro, mas desconhecido, que passou pela NFL foi Damian Vaughn. Ele tem cidadania brasileira, pois a família de sua mãe é de Divinópolis (MG), mas nasceu no Alasca e só viveu no Brasil dos seis meses aos cinco anos de idade. Além disso, o tight end nunca entrou em campo na liga, apesar de ter tido contrato com Cincinnati Bengals, Miami Dolphins e Tampa Bay Buccaneers entre 1998 e 2002. E, infelizmente, encerrou a sua carreira de vido a uma contusão.

BRASIL: O PAÍS DO FUTEBOL AMERICANO
Diferente dos mais diversos esportes praticados popularmente no Brasil, o futebol americano foi, de certa forma, um produto da força da televisão brasileira, pois, antes mesmo de inventarem a internet, foram suas transmissões que espalharam a modalidade famosa nos Estados Unidos aqui no país da bola redonda. Alguns nomes foram de suma importância para o futebol americano no Brasil ser o que é hoje. Nomes como Luciano do Valle, André José Adler, Ivan Zimmermann, Silvio Santos Júnior, Paulos Mancha, Everaldo Marques, Paulo Antunes, Rômulo Mendonça, entre outros, marcaram e marcam até hoje o futebol americano com suas narrações e comentários, contudo, a primeira transmissão da NFL no Brasil surgiu muito antes deles.

PRIMEIRAS TRANSMISSÕES DA NFL NO BRASIL
Os primeiros fãs do futebol americano começaram a surgir no país na década de 1960, quando a extinta TV Tupi fez algo inédito no país até aquele momento: transmitir toda uma temporada da NFL. E isso só aconteceu quando a emissora brasileira recebeu diversas fitas das partidas do ano de 1968 da rede norte-americana CBS na íntegra. E quem aceitou esse desafio de apresentar o esporte para os brasileiros foi o então narrador de futebol Walter Silva, conhecido popularmente como Pica-Pau, que resolveu incluir os jogos na programação. Walter foi o primeiro entusiasta do futebol americano no Brasil e quem fez adaptações para introduzir a modalidade para os telespectadores. Ele também era um homem da música e, entre outros feitos notáveis, foi o descobridor de Elis Regina.


Quando Walter Silva resolveu colocar as fitas no ar, não sabia quase nada das regras e do jogo. Descrevia aquilo como uma verdadeira guerra em campo e um esporte voraz com homens se gladiando o tempo todo. E para que todos entendessem o esporte, convidou os fãs para ajudá-lo nas transmissões. Assim ele conheceu o americano Thomas Noonan, que era funcionário do Citibank, em São Paulo, e começou a ajudá-lo a entender melhor o que estava acontecendo. Noonan, que jogou futebol americano enquanto adolescente no EUA, explicava cada ação ocorrida na telinha e isso fez dele o primeiro comentarista da modalidade no Brasil.
A audiência daquele jogo maluco fez sucesso entre o público que acompanhava cada partida da dupla formada por Walter Silva e Thomas Noonan. Contudo, em 1970, não aconteceu mais transmissões da NFL na TV Tupi, pois a CBS não enviou as fitas da temporada que havia terminado a pouco tempo. Assim, a emissora resolveu tirar o esporte da grade.

Thomas Noonan

Walter Silva



O ESPORTE CHEGA DE VEZ NO PAÍS
O esporte só chamou a atenção mesmo na década de 1980, e em outra emissora: a Bandeirantes, que abriu espaço para diversos esportes americanos graças ao ex-narrador Luciano do Valle e o lendário programa Show do Esporte, que tinha nada menos do que oito horas seguidas de transmissão esportiva, e que fez o grupo paulista fazer jus ao famoso bordão, “Band, o canal do esporte”.
Foi o próprio Luciano que expôs a sua voz nas transmissões dos jogos da NFL e da NBA, além da Fórmula Indy, e despertou o interesse dos brasileiros nesses esportes ainda sem espaço no Brasil. Em entrevista ao programa Bola da Vez, em 2013, o ex-narrador foi claro ao dizer que “tinha certeza que no dia em que o brasileiro conseguisse entender um pouco das regras do futebol americano, ia ser uma loucura”.
A NFL continuo conquistando o seu espaço na Band em 1990, e começou a ter lances dos jogos sendo exibidos no programa Placar Eletrônico, que era exibido após o Fantástico, na Rede Globo. Entretanto, aos poucos, foi perdendo seu espaço na TV aberta, e passou a ser transmitida de vez na TV Fechada na mesma época – onde está desde então – graças aos canais ESPN, que haviam chegado ao país no final da década anterior. Porém, a emissora americana tinha uma árdua tarefa pela frente: como tornar o futebol americano popular no “país do futebol”?
Para isso, em 1992, a ESPN contratou os narradores brasileiros André José Adler e Ivan Zimmermann para realizarem as transmissões das partidas da liga norte-americana que eram redirecionadas da ESPN Internacional, sediada na cidade de Bristol, para a sede em São Paulo. Assim, por muitos anos, ambos foram as vozes e maiores entusiastas do esporte no Brasil por mais de 10 anos.
No início dos anos 2000, a NFL começou a ganhar força fora do território americano, principalmente aqui no Brasil. Com o aumento de assinaturas de TV Fechada no país, um número maior de pessoas passou a ter contato com o esporte. Produtos das franquias começaram a ser vendidos em lojas brasileiras, as transmissões começaram a cair nas graças dos telespectadores.
Com o passar dos anos, e vendo o sucesso que a ESPN do Brasil vinha tendo com o futebol americano, a Band planejou a volta das transmissões para o Grupo Bandeirantes, mas pegando o barco do sucesso da TV fechada, resolveu que faria isso no canal Bandsports. Para isso contratou o experiente Ivan Zimmermann, que trouxe para ajudá-lo na difusão da modalidade Silvio Santos Júnior e o já historiador e entusiasta do esporte, Paulo D’Amaro, mais conhecido como Paulo Mancha.
Para não ficar para trás no quesito depois da demissão de André José Adler, a ESPN resolveu investir em um jovem narrador chamado Everaldo Marques para cobertura dos jogos. Só que ainda faltava um comentarista que completasse uma boa dupla durante as partidas. Assim, depois de um teste, o canal contratou Paulo Antunes. Os dois fizeram tanto sucesso, que até os dias atuais são o principal dueto na transmissão das partidas da maior liga esportiva do mundo.
Com o passar do tempo, a Bandsports parou de transmitir a NFL, e com isso surgiu a oportunidade do canal Esporte Interativo, que teve muito sucesso por um veículo totalmente esportivo na TV aberta. Muitos de seus fãs vinham do Rio de Janeiro e Nordeste, locais que o EI tinha grande audiência. Só que com o passar dos anos e a concorrência da ESPN, o canal não comprou mais os direitos de transmitir a liga.
E com a hegemonia da ESPN no esporte, e uma audiência cada vez maior, novos nomes foram contratados para a exibição de mais e mais partidas. Além dos que já ali estavam, nomes como Paulo Mancha, Rômulo Mendonça, Ari Aguiar, Antony Curti, Renan do Couto, Eduardo Zolin e Paula Ivoglo (primeira comentarista do esporte na TV brasileira) foram contratados para ajudar a difundir o esporte cada vez mais.

Luciano do Valle

André José Adler

Ivan Zimmermann

Everaldo Marques e Paulo Antunes


O FUTEBOL AMERICANO VEIO PARA FICAR
A partir disto, surgiram não só torcedores que acompanhavam o esporte como também os primeiros praticantes de futebol americanos no Brasil. Considerada ainda recente, a prática da modalidade começou de forma básica entre 1990 e 2000. Por conta da falta de infraestrutura e equipamentos, o jogo, inicialmente, foi praticado nas areias das praias do país, principalmente no Rio de Janeiro e no litoral do Nordeste, e sem nenhum tipo de equipamento de proteção, mas com todo o contato. Prática conhecida também como no pads.


Já em São Paulo, em espaços nos parques e campos de várzea, além do no pads, outra versão do FA (futebol americano) começou a fazer sucesso: o flag football, que nada mais é que uma versão mais leve do esporte, em que não é necessário o contato físico com o adversário para parar uma jogada ou um avanço. Basta retirar a espécie de bandeira que fica em um cinto atrelado à cintura de cada jogador para parar a jogada. Assim surgiram os primeiros campeonatos que deram início a difusão do esporte no Brasil: o Carioca Bowl, disputado nas areias fluminenses desde a década de 90, e a Liga Paulista de Flag, na capital paulistana, no início do século.
Como esses torneios e seus times começaram a ganhar forçar, começaram a surgir cada vez mais times pelo Brasil que começaram a organizar amistosos e campeonatos. Só que muitas dessas equipes não possuíam dinheiro para a compra dos equipamentos de proteção para a quantidade de jogadores que possuíam. Ombreiras e capacetes teriam que ser importadas dos Estados Unidos e o custo era extremamente alto para quase todos eles, mas um jogo mudou tudo isso por aqui.

PRIMEIRO JOGO OFICIAL FULL PADS
O dia 25 de outubro de 2008 ficou marcado na história do futebol americano brasileiro como o FABr Day. Isso porque foi exatamente nessa data que aconteceu o primeiro jogo oficial de futebol americano full pads – quando se usa todos os equipamentos de proteção – em solo brasileiro. Na data em questão, Curitiba Brown Spiders e Barigui Crocodiles se enfrentaram em Curitiba, Paraná, com direito a campo oficial, torcida e todos os jogadores utilizando dos devidos equipamentos.
Só que não foi nada fácil realizar esse confronto desta forma. Por muito tempo ambos tentaram conseguir todos os itens para se praticar futebol americano da devida forma. Para isso, membros do Brown Spiders foram pioneiros e importaram muitos dos equipamentos necessários para treinar e jogar da forma que deve ser. Além disso, o time se ajudou os rivais curitibanos e do Parque Barigui a também conseguirem todo material necessário.


Depois de muito esforço, treinos e adaptações aos novos itens, nos quais nenhum dos atletas estavam acostumados a utilizar, finalmente havia chegado a hora de organizar uma partida com todos os parâmetros oficias ao futebol americano praticado na terra do Tio Sam. Diante de um público de quase 3 mil pessoas, as equipes paranaenses jogaram a primeira partida com campo devidamente marcado, arbitragem e equipamentos completos do Brasil. Na ocasião, Brown Spiders venceram por 33 a 10, mas o resultado era o menos importante, pois ali nascia mais uma semente para a história do esporte no país. Este confronto foi comentado nacionalmente e serviu de exemplo e inspiração para que outras equipes no restante do país também evoluíssem.

A CRIAÇÃO DOS TORNEIOS NACIONAIS
Em 2009, outros times já haviam comprado equipamentos e mudado o panorama nacional do futebol americano. O problema é que ainda eram muito poucos. Por ser importado e caro, comprar um capacete e um shoulder pad (armadura) era um pequeno luxo. Sem perspectiva de um campeonato nacional, ficou decidido que aconteceria uma competição entre combinados estaduais com os jogadores que praticavam e possuíssem os itens de proteção.
Com isso, os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Paraíba, Mato Grosso e Santa Catarina formaram times locais e viajaram até a cidade de Sorocaba, no interior paulista, para o Torneio de Seleções, no qual o a equipe da casa foi campeão.
Depois de tanta empolgação com o primeiro torneio de Seleções, os organizadores não poderiam perder a oportunidade de dar o primeiro passo para um Campeonato Brasileiro. Sob a organização de André José Adler, que foi narrador de futebol da ESPN por vários anos, oito equipes foram aprovadas para disputa do inédito Torneio Touchdown de 2009. A competição mudou os rumos da prática nacional do esporte e do seu crescimento.


No ano seguinte, surgiu a Liga Brasileira de Futebol Americano (LBFA) após algumas divergências entre todas as equipes e organizadores do Torneio Touchdown. A partir desse momento, passaram a existir duas competições de nível nacional no país. A LBFA ficou com esse nome até 2012, quando se transformou no Campeonato Brasileiro de Futebol Americano. Em 2014, a Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) criou a Superliga Nacional (1ª divisão) e a Liga Nacional (2ª divisão).
Só em 2016 que a CBFA anunciou em comunicado o fim do campeonato rival, o Torneio Touchdown, e unificou todos campeonatos brasileiros do esporte, também reconhecendo como campeões nacionais todos os vencedores das duas ligas.
Em 2017 outra mudança surgiu. Nasce naquele ano a Brasil Futebol Americano, torneio criado, organizado e gerido por um grupo homônimo de clubes e chancelado pela Confederação Brasileira de Futebol Americano. Essa mudança ajudou na criação de uma liga ainda mais forte e que evolui mais a cada ano. Em 2018, foi o torneio com o maior número de participantes da história do FABr.

JOGADORES DA NFL VISITAM O BRASIL
No ano de 2014 o futebol americano brasileiro foi olhado de perto por quem está na NFL. A entidade American Football Without Barriers (AFWB), fundado pelos jogadores Breno Giacomini, jogador de linha ofensiva e filho de brasileiros nascidos em Minas Gerais, e Gary Barnidge, que jogava no Cleveland Browns, esteve no Brasil para uma sessão de treinamentos com atletas entre 8 e 22 anos. O intuito da organização, que já esteve em países como Turquia, China e Egito, foi difundir a modalidade fora dos Estados Unidos.


No Brasil, jogadores de nome na época como DeAngelo Williams, Marshawn Lynch, Alex Mack e Barkevious Mingo foram alguns dos jogadores da National Football League que vieram participar do evento, conhecer o país e ver como o esporte é praticado por aqui.
A experiência foi registrada por vários programas esportivos da TV brasileira e foi mais um passo para que a NFL visse como o Brasil era um mercado a ser explorado cada vez mais por seu marketing e por suas ações comerciais.

BRASIL ONÇAS NA COPA DO MUNDO
2015 foi um ano mágico para o FABr. Nesse ano, a Seleção Brasileira de Futebol Americano, teve a primeira oportunidade de participar da Copa do Mundo do esporte organizada pela International Federation of American Football (IFAF), que seria sediada na capital mundial do futebol americano e onde fica o Hall da Fama da modalidade: Canton, no estado americano de Ohio.
Para ir à Copa, o Brasil Onças teria que jogar uma partida eliminatória contra a seleção do Panamá, na Cidade do Panamá. E com muitas dificuldades financeiras e de logística, a seleção viajou para enfrentar os panamenhos e saiu de campo com uma vitória gigantesca por 26 a 14, mesmo com todo o favoritismo do time da casa, garantindo a vaga no Mundial.


Ainda sem nenhum tipo de apoio de patrocinadores, todos os jogadores convocados e sua comissão técnica tiveram que arrecadar fundos para financiar as passagens e hospedagem na terra do Tio Sam. Foram feitas rifas, vaquinhas e todo tipo de arrecadação possível para que todos os membros daquela seleção fosse participar desse momento.
Superada todas as dificuldades, o Brasil Onças teve o privilégio de jogar pela primeira vez no Tom Benson Hall of Fame Stadium, localizado ao lado do templo sagrado do esporte, no dia 8 de julho de 2015. Depois de muito luta e suor, os brasileiros disputaram as três partidas da fase regular da Copa do Mundo com transmissão do canal ESPN do Brasil em rede nacional. Foram duas derrotas sofridas: 31 a 6 na estreia contra a França, e 16 a 8 contra a Austrália. Só que o grande resultado de todo o trabalho realizado veio contra a Coréia do Sul, quando a seleção brasileira venceu pelo placar de 28 a 0. Um resultado histórico para um time sul-americano e que deu ainda mais projeção ao esporte no país.


CLÁSSICO ENTRE BRASIL E ARGENTINA
Em 2017, já com a consolidação do esporte no Brasil, e com a unificação de todos os campeonatos brasileiros por meio da BFA, os Onças foram convocados novamente, depois de dois anos e cinco meses, para disputar um amistoso contra a Argentina Halcones em pleno Estádio do Mineirão, um dos mais tradicionais estádios do futebol brasileiro e palco da Copa do Mundo FIFA 2014.
Debaixo de uma chuva intensa, e sob os olhos de todos os fãs do esporte que acompanhavam a partida das arquibancadas e pela transmissão feita pela ESPN Brasil, no dia 16 de dezembro, com a elite do futebol americano nacional em campo, o Brasil da bola oval mostrou toda força e desenvolvimento da modalidade ao longo dos anos em terras nacionais. Se impondo do começo ao fim, o Brasil Onças venceu nosso hermanos por sonoros 38 a 0.


A evolução para a equipe que jogou o mundial da IFAF foi tão grande, que chamou a atenção de toda a imprensa e pessoas que não conheciam o poder do futebol americano praticado no Brasil. E resultados ainda melhores são esperados com expectativa de participação na Copa do Mundo de 2019, que será disputada na Austrália. E para chegar lá, basta que a seleção bata novamente um velho conhecido: o Panamá.
Que venham mais e mais histórias do futebol americano no Brasil para serem contadas no Além das Jardas!